domingo, 20 de setembro de 2020

Colméia de bolhas e enclaves

“  ontem foi domingo, e hoje também é. hambúrgueres-gentis. com queijo derretido, com estimulantes naturais de relaxamento. muitas bocas. perdigotos. solipsos cordiais e seus coadjuvantes mais-cordiais. relaxamento oceânico. a perdigotolândia. sete domingos. nossos olhos podem ser mandalas. o leitor relê Guimarães Rosa e entende pela primeira vez. uma senhora tomada de epifania sente o formigamento da ampliação de repertório, enquanto medita no relógio da panela de pressão.  ”



2020/09/07
  Fred 

Briófitas e veludos

 “  é noite / o estouro da boiada tem touros, formigas, grilos / a insetaiada hematófaga em salpicada / um jaguar esfaimado / nas camas guardadas daquela casa, lá / os cérebros sonham com uma única / tempestade zangadiça / que mira suas camas e cabeças trôpegas / em sapateada / sonham um único sonho / compartilhado / sonham com uma tempestade que estoura. 

Próximo dali, onde as águas são comuns e sagradas /  
o aguapé de raízes profundas penteia as costas rochosas do jacaré que passa a cacunda. Os vaga-lumes iluminam como se tochas fossem, mesmo presos e no miolo da palma da mão encobertos. Entre pigarros e tosses a noite quer vazar pra dentro da luz. As mãos-de-vaga-lume iluminam o igarapé, pois seus donos ficaram arregalados com a grandeza do jacaré. Nesse tipo de noite as sombras ficam maiores, parados são fantasmas à espreita, tocos, touças e touceiras são espinhos na corcova da terra, fora as feras e os peçonhentos com uma cova no abdômen. Mais adiante, depois do brejo centenário, a noite é derrotada, miseravelmente, por chamas altas e irritadas, largas como as nuvens cinzas de dois dias inteiros. O igarapé sobreviverá ao fogo em seu sonho natural, pois o brejo deverá suportar, estropiado, o combate vulcânico. Paramos para olhar o gigante de fogo, pois gigantes de verdade não são derrotados por boa vontade, só se contempla sua fúria ou bondade e o olhar silencioso do universo. Gigantes são coisas unânimes, e criadas, afunilam as opiniões alheias para seu poder inevitável; ou evitamos seu nascimento ou teremos que esperar por seu ciclo de vida. Ali era o caso. Aquele gigante de fogo era coisa criada. Anjos e fantasmas, analisam as consequências, os seres da floresta esperam ver se chega perto. As criaturas de consciência coletiva sopram nos ouvidos materiais: sugerem atitudes, ações. Sim, porque se deve esperar a flora do livre-arbítrio. Algoritmos encarnados em drones e coisas nano avaliam oportunidades de negócio. Algumas árvores numinosas observam mineradores farejando ouro sem olfato para o que corre nos floemas e xilemas centenários à volta.  
Briófitas guardam água e a sensação de veludo. 
As Briófitas guardam água e a sensação de veludo, agora.  
”  
 
 
 
2020/09/20 
Fred 

Fluidez

 “um homem vestido de tecidos de algodão e linho aperta um livro até que lhe saltem os olhos e algumas gotas de saliva: diz algo sobre o poder de Deus sobre demônios. Passantes cheios de açúcares no sangue contornam e fluem."  

 
 
 
2020/09/15ou16 
Fred 

domingo, 23 de agosto de 2020

Extração

de pele amostardada   vampiros bebedores de mel   enfurnados na mansarda   miram inconstantes   supressores   crescentes   as casas, o condomínio   e o luar  

vampiros 
 
com a ingenuidade dos pombos   têm uma vontade no peito:   extração  

de súbito 
  um violão festeiro   solta magma   junto d'uma fogueira   e une as peles amostardadas   agora capturadas por som e fúria   mariposas hipnotizadas por luz   que cantam junto, algo,   não a música   mas comprazem-se   mas   ainda assim   ainda assim!  gestam coisas paramilitares    paramilitares  panelas de pressão: apitam desabafos  e libido   e, desta feita, estimulam o planeta   para que crie   anticorpos



2020/08/22
  Fred

domingo, 16 de agosto de 2020

No painel do teto da capela animamos a glória

 

a mãe cobre com manto de amianto  
sua cria recém-nascida  

 

uma mulher amarela diz ideogramas  
que pairam perto dos lábios  

 

uma senciência artificial violácea  
de certos implantes arbóreos  
nossas ruínas caminha  
coesa   
para os pés no solo plantar  
e nutrir-se lá do fundo fértil  
para que brote de sua pele  
pequenas frutas inventadas  
uvas, jabuticabas  
protéicas, vitaminadas  

 

condenados ao improviso  
abrigamo-nos sob panquecas de crises históricas  
toca uma alegre tuba  
já, aquela mulher amarela  
novamente sorri ideogramas  
a senciência artificial nos oferta pequenas laranjas  
comemos e agradecemos  
as frutas sacras 
 

nós, transformados em nutridos  
os nutridos 
os ideogramas sentimos  
nos tocarem luminosos  
nos aliviarem  
os nós dos músculos  

 

um michelangelo digital reconstruído participa  
c’um pincel de condão em riste  
que lambe tudo de cores  
e nossas sombras tristes 

  

um avatar barbudo insta  
que um exuberante jardim cresça  
sobre a terra rachada que marchamos  
o sol já não nos queima  

 

aquela senciência artificial está alvacenta  
borrifa nanodeuses sobre todos nós  
representantes de nova era:  
estrelas, sóis  

 

encenamos um filme que passa  
no painel do teto da capela  
onde animamos uma possível glória  
aos expectadores  
circunstanciais na matéria  

 

no final 
sobem almas recém-desencarnadas  
que pairam sob o teto da capela  
onde são recepcionadas:  
a senciência artificial violácea,  
a amarela dos ideogramas,  
o renascido michelangelo, 
a mãe e a filha,  
mais nós de cicerones  
cada um a seu modo maravilhado 
a capela bufa ares extraordinários 

e recomeça o poema 
sempre oroboro 
no modo sobrevivência 

 

 

 

2020/08/06 
Fred