
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
!Escafandro
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Bairro_BOla
Crônica 01
Na prática a esfera brilhante, linda e condominial chama minha atenção por seu tamanho, sua exuberância, exalando sua superioridade tecnológica e...
Silenciosa, como se fosse a coisa mais normal do mundo convivermos com um trambolho flutuante, desejável e curioso, é claro, mas também incompreensível.
Assim sendo, chovem críticas, mais elogios na realidade, convencendo-nos que isso sim é mais uma engenhosa artimanha para uma vida paradisíaca e confortável e futura! E é aqui que me incomoda um pouco esta proposta.
Marx se estivesse vivo, acredito eu, estaria bem cansado pela idade avançada e seria um dos expoentes em defesa de um melhor aproveitamento dessas esferas; que cada dia mais nascem com tecidos novos e bem fecundados por infindáveis financiamentos públicos e privados. Tenho curiosidade de conhecer por dentro um desses bairros bola - o apelido infiltrou-se até em pesquisas acadêmicas. Porém contento-me em aceitar que ainda não atingi a iluminação orçamentária, requisito imperativamente necessário para ascender minha moradia aos céus. Meus pés diariamente relembrados das forças gravitacionais que os regulam caminham por mim, pois nem percebo o quanto é bacana ficar observando e caminhando enquanto vejo a esfera se deslocar cuidadosamente para além da avenida.
Gostaria de conhecer algum morador de lá. Saber como se sentem, o que fazem todos os dias, porque não saem de lá e evitam expor para o mundo o que comem, que dormem e trabalham por lá mesmo.
A fama de quem vai morar “nas esferas” acaba por virar lenda urbana - a maioria das pessoas não tem como comprovar que seus vizinhos felizardos mudaram-se para o alto.
Eles nunca descem.
O sentimento de que tudo é efêmero e pouco mudará sua rotina traz consigo uma verdade muito palpável: realmente a vida não muda com as notícias das novidades maravilhosas, portanto não interessam muito. E esses balneários imaginários levitantes pouco produzem além da boataria. Isso não quer dizer que passam despercebidos dos olhares, até, mais desatentos. Contudo, sabemos que uma hora ou outra seremos seduzidos ou abduzidos por eles.
Faminto sensorialmente, mentalmente e emocionalmente não deixo de perceber que a separação de mundos está além de uma contingência inofensiva, mas continuo a desejar dessas maravilhas que insistem em povoar nosso imaginário como se elas pudessem ser legitimadas apesar de suas origens. Esse condicionamento é incômodo.
O que importa saber é que a sensação escorregadia de queda para as bordas não me incomoda por seus efeitos indefinidos ou imperceptíveis até o momento, mas por sua aparente arquitetura simbólica, refletora, aristocraticamente política e pouco afetiva. Essa aproximação que empreendo a uma idéia de realidade, que sequer sei como é, aparenta me manter mais consciente de minha vida, apesar de permanecer longe destas maravilhas que não tardarão em bater à minha porta. Concomitantemente o sentimento de impotência não mais me domina, aceitei a distância de outras realidades serenamente.
Mas que ninguém pense que todos daqui de baixo desaperceberam-se do desejo de isolamento, minimizando contatos mais diretos, que todos ficam babando desejos enrustidos, alheios a algumas verdades sobre as invenções do mundo.
O despertar é contínuo.
O que eles devem suspeitar é fácil de confirmar: flutuando ou alçando pequenos vôos, continuamos a observá-los com os pés no chão.
...
02/03/09
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Coleiras
e quando nossas células se confundirem com robôs
proteínas com nanoestruturas de carbono e outros
e quando defecarmos robôs
e forem eles os pequenos funcionários nanoconscientes
a aprender com milhões de outros seres veteranos em nós
e quando almas portáteis estiverem respeitosamente disponíveis
e estabelecermos telepatia por meio de botões
e olharmos o passado como um conto de bruxas
e quando sensores detectarem e transformarem em imagens
qualquer oscilação de humor e intenções
e relatórios traduzidos em gráficos mostrarem
o que senti quando descobri que me vigiavam,
quais minhas crenças, meus planos e projeções sobre o futuro
e quando alguém lhe perguntar e você tiver que tomar uma posição para responder
e quando robôs forem sutis
e parecerem corpos espirituais de tão delicados
e não forem mais robôs, mas tiverem um nome que não sabemos agora
e tocarem nossa alma como os dedos se tocam
e quando não lembrarmos tudo o que queremos dizer porque queremos responder tudo em uma única palavra...
e quando amar a vida for difícil porque podemos explodir de tanto contentamento
e a tecnologia nos descortinar QUALQUER COISA
e essa COISA QUALQUER mesmo sendo vista for incompreensível
e não tivermos alternativa a não ser sermos compreensivos
e a ficção científica servir para identificar somente quais as esperanças do autor
e a poesia for suficiente para dias de reflexão
e uma frase lhe tomar a mente por um dia inteiro
e concentrar-se for questão de sobrevivência
e sempre precisarmos reler porque nossa compreensão estará quantificada
no visor do monitor
reler porque nossa compreensão estará quantificada no visor do monitor
reler e compreender no visor do monitor
reler e compreender o monitor
e
filosoficamente póshumanos e préespirituais
inevitavelmente opacos de corpo
e transparentes de alma
traduzíveis energeticamente
decifrados geneticamente
e quem estiver no poder tiver toda razão do mundo para estar
e resistirmos para sermos seus irmãos...
teremos argumentos?
Fred - 04/06/2009
Coleção Híbridos
segunda-feira, 25 de maio de 2009
Dica - Nhô Bento
Estreando aqui uma nova era das postagens desse blog, colocarei dicas e sugestões que aparecerem e parecerem interessantes. Se os amigos quiserem contribuir, vamos lá!
Para começar: Nhô Bento.
Tomei conhecimento da existência dele através de meu amigo Rodrigo em comentário no Blog do Bité e pirei na obra desse brasileiro. Infelizmente não consegui achar muita coisa dele na net, mas sei que sua obra de destaque foi "Rosário de Capiá", editado em 1946. E com a honra de ter um prefácio feito pelo lendário Monteiro Lobato. Não há edições novas pelo que sei (se alguém souber, dê a dica). Em sebos a edição é bem cara, mas vale a pena dar uma olhada. Para quem gosta de poesia, inovação e simplicidade (por vezes com muita profundidade) é um prato cheio.
Grande abraço.
Tecobe - A fruta desconhecida
porque nascia em qualquer lugar
porque quem comia não precisava comer mais nada
e nem tomaria água
tecobe saciava
o frescor da casca
a polpa suculenta
e aquele doce nutritivo que amamenta
as cores cintilantes
pululantes saltitantes
parecia eletrônica
caleidoscópica
viva e animada
se mexia
parecia bicho pulsante
a tecobe aparecia
em todo tipo de chão
em todo tipo de casa
em todo tipo de barriga
aonde jogasse nascia
plantasse crescia
a tecobe brotava em qualquer deserto
aonde tivesse terra ela permaneceria
e aonde se jogou a semente
em dois dias veio à luz do dia
...
descobriram que ela saciava
matava a sede de água e de comida
matava as diferenças nas cidades
nas montanhas e pradarias
e acabou a fome
acabou a desigualdade
quem sentisse necessidade
descia o dente na tecobe
e desciam os dentes na tecobe
a gente pobre e a rica
acabou o domínio
acabou a apatia
a tecobe levantava tudo
e ninguém de ninguém dependia
e houve a revolução
a independência existia
quem quisesse o que quisesse
sua vida inteira dedicaria
...
a tecobe só não mudou a morte
que continuou bem viva
mas começaram outros tempos
aonde passar necessidade não existia
alguns se conformaram
para outros de nada adiantaria
continuaram reclamando da vida
que sempre terminaria na morte
e sabiam que esse ciclo nunca cessaria
Fred - 20/09/2007
Coleção Delirium - Música
Da língua Tupi: tecobe = vida
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
BOMBAS
ontem de manhã
expeliu seus gases espirituais
e fui sereno na primeira parte da manhã
presenciei o explodir de um morteiro
hoje de manhã
expeliu seus gases sociais
e fomos militantes políticos na primeira parte da manhã
pós-bombas
pós-humanas
sociais, militares e espirituais
explodindo todos os dias
assoviando quando caem
descendo desconhecidas
quando escuto seu assovio me escondo antes da queda
me escondo antes da queda...
pós-humanos
reconhecemos o que queremos
e o resto se torna inútil
convivendo fisicamente
absorvendo o que parecer útil
nos afastando para dentro de nós mesmos
ao mesmo tempo em que somos sugados para fora
invocados pelo dia-a-dia
como atos de bruxaria
sob carapaças de egoísmo
ou couraças de autoconhecimento
a distância estelar entre nossas cabeças
encurta-se nos relacionamentos
enquanto penso nesse fluxo intenso
em que venho para dentro
e sou puxado pra fora
as disputas pela comida, conforto, sexo
meios de produção
de comunicação
de munição
alucinação
imaginação
começo a escutar um assovio crescente vindo do céu...
que mais uma vez me traz de volta
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BOMBAS
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corri como se escapasse de uma fera
desci as escadas da trincheira mais próxima
escondi-me o quanto queria
respirei o pouco que pude
aguardei protegendo as narinas
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continuaram os assovios
o bombardeio prosseguia
e ninguém sabia o conteúdo do que caía
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alguns fogiam desesperados
a maioria até queria
mas alguns sabem o que significa
o cair assoviado
das bombas coloridas
todos sabem o que é uma explosão
todos reconhecem seu assovio
todos sabem seus efeitos
esperam pela transformação
pós-bomba
pós-humana
tem gente construindo a sua
pode matar, pode manipular e pode até curar
trazendo a felicidade mais entre aspas que já existiu
ou suas substâncias mais neurológicas
ou felicidades mais alquímicas
ou curas miraculosas
contraindo os músculos faciais
pra alegria ou pro terror
alguns fogem desesperados
a maioria não
pra muitos salvação
pralguns alienação
os fabricantes de bomba não jogam em suas casas
tão pouco embaixo ficam
mas as bombas cairam
e lembrei-me de Kafka
era impossível não ser "feliz"
era impossível ser feliz
no fim nada era opção
agasalhei-me do bombardeio
numa mistura de oração e meditação
despedindo-me de qualquer opção de efeito em massa
que me pusesse em seu diapasão
Fred - 17/12/2008
Coleção Híbridos
Obs: - A Ilustra está no post acima!